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sábado, 20 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27551 A nossa guerra em números (48): é provável que em média um soldado gastasse, mensalmente, só em cerveja, até 1/3 do pré; e, quando não tinha "patacão", bebia fiado...


Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 557 (1963/65) > 1964 > Uma pausa nos trabalhos ciclópicos de construção do famoso "Forte Apache" (perímetro defenbsivo feito por troncos de  cibes)... Num dos piores lugares do inferno verde e vermelho que foi, para muitos de nós, a Guiné... Mas hoje seria uma fantástica imagem de publicidade a uma marca de cerveja (que por sinal não seria a Sagres mas a Cristal). Fotograma  de vídeo, do álbum do José Colaço (ex-soldado trms,  CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65).

Foto (e legenda): © José Colaço (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

Guiné > Notas 100  escudos (ou "pesos") Banco emissor: BNU - Banco Nacional Ultramarino (1971). Efígie: Nuno Tristão. No câmbio e no comércio, em relação ao escudo da metrópole, emitido pelo Banco de Portugal, havia uma quebra de 10%... Ou seja: 100 "pesos" (escudos do BNU) só valiam 90 escudos (do Banco de Portugal)... Recorde-se que o BNU foi criado em 1864 como Banco Emissor para as ex-colónias portuguesas (tendo também exercido funções de banco de fomento e comercial no país e no estrangeiro; vd. aqui a sua história).

Uma nota destas, em 1969, dava para pagar à lavadeira, diz o nosso editor LG,  ou comprar uma garrafa de uísque do bom... Na cantina do Zé Soldado, rm Bambadinca, dava para comprar,  cerca de 14 cervejas de 0,33 l. 

Foto: © Sousa de Castro (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quanto é que um soldado bebia de cerveja,  em média, por mês ?   É  arriscado calcular médias.  Porque nem toda a gente bebia (e muito menos cerveja).

O nosso 1º cabo cond auto  José Claudino Silva, da 3ª CART /BART 6250/72 (Fulacunda, 1972/74) dá-nos algumas pistas: promovido pelo 1º sargento a cabo dos reabastecimentos, compete-lhe controlar o "stock" de bebidas e não deixar o pessoal morrer de sede... 

 Estamos na companhia dos "Serrotes", a que pertenciam também os nossos camaradas Jorge Pinto e Armando Oliveira.

Escassos meses depois da chegada (em finais de junho de 1972), "os serrotes de Fulacunda" (sic)  passam, em outubro, a consumir  ( ou, com mais rigor, a requisitar,  em média, 12 mil cervejas por mês, em vez das 10 mil) (*). Era bom ter alguns "excedentes" no armazém, para o caso do mundo acabar...

Pelo menos era esse o "stock" mensal. Já lhe pedi para confirmar esses números, distinguindo entre existências e compras/consumos.

 Admitindo que houvesse, no máximo,  cerca 200 militares  em Fulacunda (1 companhia de quadrícula + 1 Pel Art), um consumo médio de 12 mil cervejas, dava 2 cervejas por dia  por cada militar, o que não é muito. ( Não sabemos a proporção de cervejas de 0,33 l e de "bazucas",. de0,. 66 l.)

Também não temos termos de comparação com outros sítios da Guiné, com mais facilidades de reabastecimento (por ex., Bambadinca, por onde se abastecia todo a Zona Leste,as regiões de Bafatá e Gabu, que iam do Xime a Buruntuma).

A cerveja no meu tempo (Bambadinca, 1969/71) era a 3$50,e a "bazuca a 6$00. As duas marcas eram a Sagres e a Cristal, em garrafa de 33 cl (a "bazuca", a 0, 66 l). Acho que também já havia a enlatada, mais cara (mas já não tenho a certeza: as bebidas enlatadas eram a coca-cola e outros refrigerantes, que vinham da África do Sul, supono, juntamente com as fritads em calda).

De qualquer modo, modo lá se ia 1/5 a 1/3 do pré de um soldado (que era 900$00, enquanto um 1º cabo ganhava 1200$00).

Estamos a falar de uma média estatística (que é sempre enganadora): 

  • 2 a 3 cervejas por dia, em média,  é perfeitamente aceitável, se considerarmos as condições (de clima e de guerra) que enfrentávamos na Guiné;
  • temos, por outro lado, que considerar o número (desconhecido) dos abstémios... e o consumo de outras bebidas (coca-cola, uísque, vinho...);
  • provavelmente não se bebia mais cerveja porque o "patacão" não chegava, nem muito menos havia capacidade de frio (que melhora,apesar de tudo,  no tempo do gen Spínola);
  • como muitos de nós diziam, "a cerveja quente sabia a mijo"...

Já agora reproduz-se  aqui, de novo,   um interessante documento que é o  "Rol das despesas mensais de um soldado". Permite-nos  reconstituir, de certo modo, o quotidiano e o padrão de consumo de um soldado-tipo. Não temos  a certeza se a situação se reportava à Guiné ou outro TO (Angola ou Moçambique). Para o caso, também não interessa muito. De qualquer modo diz respeito a março de 1973.

Encontrámos esta informação numa nota de despesa, fotografada, que consta de um livro de que é primeiro autor o nosso saudoso grão-tabanqueiro Renato Monteiro (1946-2021), ex-fur mil art (CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego e Piche, 1969; e CART 2520, Xime e Enxalé, 1969/70).

Despesa de 3 [março]/1973:

  • Cerveja > 54 x 6$00 = 324$00 [=54 x 0,66 l= 35, 6 litros]
  • Cerveja > 24 x 4$00 = 92$00 [= 24 x 0,33 l= 7,92 litros]
  • Floid (sic) = 55$00
  • Pasta p/ dentes = 18$00
  • 1 frasco de cola = 30$00
  • 1 bloco de escrever = 15$00
  • 1 lata de fruta = 11$00
  • 1 garrafa de Porto = 55$00
  • Sabão = 7$00
  • Selos = 30$00
  • Envelopes = 8$00
  • Fotos = 44$00
  • Carne patoscada (sic) = 77$00
  • Vagaço (sic) = 14$00
  • 1 lata de leite = 8$00
  • Subtotal = 788$00
  • FIO (sic) = 750$00
  • Despesa total = 1538$00

1/4/1973
Assinatura ilegível


[ Fonte: Monteiro, R.; Farinha, L. - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote. 1990, p. 223.]








Excertos do capítulo IV (Quotidiano do soldado, pp. 193-259) do livro  de Monteiro, R.; Farinha, L. - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote. 1990, p. 223.] 


Legenda da foto de cima, com o militar a um canto no bar: 

"Bar de Sargentos e Oficiais, Nova Lamego, Guiné-Bidsau: sujeito  a grandes períodos de isolamento no mato ou nos aquartelamentos avançados das zonas de combate, o militar encontra nas pastuscadas e no consumo, por vezes imoderado, de bebidas alcoólicas, uma compensação para o esgotamento psicológico e moral. Nesses consumos dissipa o grosso do seu pré melhorado, que começa a auferir assim que  inicia a sua condição de 'mobilizado' ". 

Repare-se que a decoração da parede do fundo, do bar,  ainda é a do fur mil op esp Pechincha, que foi camarada do Renato Monteiro, do Valdemar Queiroz e do Abílio Duarte, em 1969, em Nova Lamego  na  CART 2479 / CART 11, os "Lacraus".

A legenda da foto com a lista das despesas diz apenas isto: "Rol de despesas mensais de um soldado" )(sic). Pela data do documento (1/4/1973) já não é do tempo do Renato Monteiro.

2. Repare-se que numa despesa mensal de 788$00 (equivalente hoje a 164, 26 euros) já nada restava do pré do soldado do Ultramar, uma parte do qual era de resto depositado na Metrópole.  Era um militar que comprava a fiado. E o cantineiro devia ser nortenho, que trocava os "bês" pelos "vês"...

Do total do consumo mensal (788$00), 52.8% ia para a cerveja! Em todo o caso, estes valores tem que ser vistos como um "outlier"; este militar, "soldado" (sic), chegaria ao fim da comissão  completamente endividado. 

Convertidos em litros,  o consumo de cerveja daria c.  de 43,5 litros por mês, 1,5 litros por dia... Se este fosse o "comportamento típico" do nosso Zé Soldado, o consumo anual de cerveja devia ultrapassar os 300 litros "per capita", admitindo-se  que na época das chuvas se bebia menos...(Parece-nos um valor exagerado.)

Havia dois tipos de garrafa: a de 0,66 litros (a chamada bazuca, na Guiné) e a de 0,33 l. 

Em 1973, o preço era, respetivamente, 4$00 e 6$00 (0,83 euros e 1, 25 euros, respetivamente, a preços atuais). Terá aumentado a cerveja de 0,33 l (de 3$50 para 4$00). Admitimos que o preço da cerveja se tenha mantido relativamente estável, ao longoi da guerra, por vezes razões "psicossociaias"...

Parece-nos mais razoável apontar para, no máximo, um 1/3 o valor da despesa em cerveja,  tendo em conta os consumos em junho de 1970 em Nova Sintra  (***).

3. Já agora, vamos rever os preços de alguns bens de consumo, na época, bem como outros valores de referência (vencimentos, por exemplo) (**).

2.1. O Sousa de Castro diz-nos que no seu tempo (1972/74) "não era muito diferente: os preços que se praticavam, eram mais ou menos os mesmos" [que em  1969/71]...

  • eu como 1º cabo radiotelegrafista ganhava 1.500$00, sendo 1.200$00 por ser 1º cabo e mais 300$00, de prémio de especialidade" [tudo somado, 1500$00 em 1973, era o equivalente, a preços de hoje,  a 312,67 €];
  • por lavar a roupa, como cabo pagava 60 pesos [em 1973][=12, 51 euros ]

Em 1969, diz o nosso editor LG:

  • recordo-me que os soldados da minha CCAÇ 12 (que eram praças de 2ª classe, oriundos do recrutamento local), recebiam de pré 600 pesos/mês [=181, 92 €];
  • além de mais uma diária de 24$50 [=7,43€] por serem desarranchados. 600 pesos deviam dar para comprar uma saca de arroz de 100 kg ( o arroz irá passar de 6 escudos o quilo para 14 em 1974, com a inflação)...

2.2. Elementos fornecidos por outros camaradas (**):

José Casimiro de Carvalho:

  • 100 pesos dava para comprar uma garrafa de Old Parr (em 1972/74);
  • como furriel, o Carvalho ganhava por mês entre 5400$00 e 6240$00 (isto já em 1974).

Humberto Reis:

Dos produtos que ele mais consumia, entre 69 e 71, referei:
  • 1 maço de SG Filtro: 2,5 pesos (sempre que saía para o mato, levava 3 a 4 maços para 2 dias);
  • 1 garrafa de whisky novo (J. Walker Juanito Camiñante de 5 anos, rótulo vermelho, JB): 48,50 pesos;
  • Idem, de 12 anos, J. Walker rótulo preto;
  •  Dimple e  Anti query: 98,50
  • Idem, de 15 anos, Monkhs e kOld Parr: 103,50
  • um uísque, no bar da messe de sargentos, eram 2,50 pesos sem água de sifão e com água eram 3,00 pesos;
  • o uísque era mais barato que a cervejola : 2$50, simples, contra 3$00 ou 3$50, além de que dava direito, o uísque,  a gelo;
  • as cervejas nunca estavam suficientemente geladas pois os frigoríficos da messe, a petróleo, não tinham poder de resposta para a quantidade de pedidos.
  • quanto à lerpa, ou ramim, uma noite boa, ou má, poderia dar, em média,  200 a 300 pesos para a lerpa e 50 a 100 para o ramim.
Luís Graça:
  • para uma família africana 100 pesos era muito dinheiro;
  • para a maior parte dos nossos militares, era muito dinheiro;
  • uma lavadeira em Bambadinca devia receber, nesse tempo (1969/71) 100 pesos por mês (era quanto ele pagava à sua)...(Elas tinham diferentes preçários, conforme a hierarquia militar; e tinham mais do que um cliente).
Com a inflação provocada pela guerra (era tudo importado!), houve uma progressiva degradação dos preços...e dos rendimentos. O problema agrava-se a partir de finais de  1973, com a chamada crise petrolífera...

Recorde-se que em 1973 os países árabes organizados na OPEP aumentaram o preço do petróleo em mais de 400% como forma de protesto pelo apoio norte-americano a Israel durante a Guerra do Yom Kippur... A nossa economia foi muito afetada...E a inflação disparou, pondo seriamente em risco a capacidade do país para poder continuar a financiar a guerra.

4. O melhor termo de comparação em relação a preçário, existências e compras de bebidas alcoólicas nas cantinas, é com Nova Sintra, ao tempo da CCAV 2483, e do nosso querido amigo e camarada,  ex-fur mil SAM Aníbal José da Silva.

Recorde-se m junho de 1970, a companhia (160 homens)  consumiu 7,8 mil garrafas de cerveja de 0,33 l , o que dava dava cerca de 2,6 mil  litros (uma média de 16 litros "per capital"... num só mês, meio litro por mês, perfeitamente aceitável, naquelas circunstâncias: um aquartelamento isolado, sem população, com reabastecimento apenas mensal)...

Claro que nem todos bebiam (cerveja ou outras bebidas alcoólicas). Mas seria raro aquele que só bebia água da torneira: na Guiné era intragável...
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22 de abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6212: O 6º aniversário do nosso blogue (12): Cem pesos ? Manga de patacão, pessoal! ( Luís Graça / Humberto Reis / A. Marques Lopes / Afonso Sousa / Jorge Santos / Luís Carvalhido / Sousa de Castro)

(***) Último poste da série > 6 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27499: A nossa guerra em números (47): mais de 2/3 do consumo, do valor de vendas em junho de 1970 (n=89 contos), na cantina, da CCAV 2483, em Nova Sintra, foi em álcool e tabaco (Aníbal Silva / Luís Graça)

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27227: Memórias dos últimos soldados do império (5): os "últimos moicanos" - Parte II (Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, Bissau, mar 1973/ set 74)

 


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > CCAÇ 2479 (1968/69) (futrura CART 11) > Centro de Instrução Militar (CIM) > Um instruendo, de etnia fula, cuja identificação se desconhece... (mas bem podia  ter sido o Djassi desta história...).

 Foto (e legenda) : © Renato Monteiro (2007). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1.   "Djassi, o ordenança", da autoria do Abílio Magro,  é outro testemunho sobre os últimos dias da nossa presença na Guiné. Faz parte da série "Um amanuense em terras de Kako Baldé" (de que se  publicaram  15 postes entre  janeiro de 2013 e março de  2016, e que estamos agora a revisitar). 

O título não deixa perceber, de imediato,  o drama, pungente,  relatado na segunda parte: o dos soldados do recrutamento local que foram abandonados à sua sorte. Como o Djassi, antigo operacional, que acabou a sua "carreira militar", incapacitado, nos serviços auxiliares,  como "ordenança" na CSJD/QG/CTIG.  E que  a partir de agosto fora obrigado a passar à "peluda"...

A cena passa-se em Bissau, já na segunda quinzena de setembro de 1974. Mas antes vamos ver o Abílio Magro, com "outro moicano", na azáfama, febril e ciclópica, de manhã à noite, de queimar todos os papéis (sensíveis) do seu serviço, em troca da vaga promessa do chefe, um tenente-coronel, de conseguirem chegar a casa uns dias mais cedo... 


Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG (Bissasu 1973/74)



Os "últimos moicanos" - Parte II

por Abílio Magro


Recorde-se que havia dois QG (Quartéis Generais) em Bissau;

  • QG/CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné), instalado em  Santa Luzia,
  •  QG/CCFAG (Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné), na fortaleza da Amura.
Eu prestei serviço na CSJD (Chefia do Serviço de Justiça e Disciplina) do QG/CTIG, em Santa Luzia.
 
No tempo em que por ali andei (1973/74), o primeiro era comandado pelo brigadeiro Alberto da Silva Banazol e depois pelo brigadeiro Galvão de Figueiredo; o segundo pelo general Spínola e depois pelo general Bettencourt Rodrigues.

Em agosto de 1974 na CSJD tínhamos um ordenança, o Djassi, soldado nativo que aparentava ter já ultrapassado os 30 anos de idade e que, enquanto operacional, fora gravemente ferido, tendo-lhe sido retirado um pulmão e integrado nos serviços auxiliares. Estava ali colocado para efectuar pequenas tarefas relacionados com aquele Serviço.

O Djassi apresentava invariavelmente um semblante carregado e raramente esboçava qualquer sorriso, denotando, porventura, algum sofrimento pelo seu débil estado de saúde, mas era um indivíduo afável, educado, disciplinado e prestável. Dava gosto lidar com ele. Nunca o vi aceitar com azedume qualquer tarefa, oficial ou particular, que se lhe solicitasse.

Nessa altura, agosto de 1974, já muitas companhias tinham abandonado os seus quartéis no mato e regressado à Metrópole, e outras encontravam-se estacionadas em Bissau a aguardar igual destino.

Por essa razão, estavamos assoberbados com papelada decorrente do "fecho de contas" daquelas companhias,  o que indiciava que nós, os do "ar condicionado", seríamos talvez os últimos a "abandonar o barco".
 
A situação era confusa. Sabíamos que iríamos abandonar a Guiné, mas não sabíamos como, nem se o faríamos definitivamente, nem quando.

Começou a correr a informação de que a partir de finais de agosto não seriam autorizadas férias a ninguém. Ora, eu e o meu camarada Silva,  do Barreiro, nessa altura já os mais "velhinhos" da CSJD, com excepção do tenente-coronel e  do major, estávamos há já mais de um ano sem gozar férias e começámos logo a tratar da papelada para o efeito.
 
Lá viemos de férias em meados de agosto e, entretanto, o "êxodo" continuava e com maior cadência.

Findas as férias, regressámos à Guiné dois dias  depois da data em que foi reconhecida a independência por parte de Portugal - 10 de setembro de 1974.

As patrulhas na cidade eram efetuadas pela PM (Polícia Militar),  conjuntamente com elementos do PAIGC, muitos estabelecimentos tinham encerrado, a tropa que ainda restava era composta de "piras" (ou "piriquitos"), oriundos das companhias mais recentemente chegadas à Guiné.

Na CSJD só o tenente-coronel e o major não tinham ainda sido substituídos, os bens escasseavam, na messe de sargentos só se encontravam "piriquitos", etc., etc.... Ou seja: eu e o Silva estávamos completamente deslocados e, se não tivéssemos tido a estúpida ideia de meter férias naquela altura, teríamos certamente regressado definitivamente, sem necessidade de desembolsar os "pesos" que nos custou a viagem.

Logo tratámos de, junto do tenente-coronel, dar conhecimento da nossa "triste" situação e efetuar o "choradinho" adequado.
 
Fomos então incumbidos de queimar todo o arquivo morto da CSJD que ocupava totalmente uma daquelas pequenas vivendas tipo colonial e que era composto por processos instaurados desde o tempo em que ainda não havia guerra na "Província", após o que poderíamos "meter os papéis" para regressar à Metrópole...

A tarefa impunha alguma responsabilidade e cuidado pois não podia ficar qualquer fração de papel por arder, o que, nos processos mais volumosos, nos obrigava quase a arrancar folha por folha.

Ali estivemos quinze dias a queimar papel que, quando amontoado, nos obrigava a remexê-lo com um pau para que não se apagasse e, no fim de cada dia, só abandonávamos o local quando existissem apenas cinzas.
 
De quando em vez, um ou outro processo despertava a nossa curiosidade pelos objetos de prova que continha e cheguei mesmo à tentação de desviar alguns, mas o desejo de regressar a casa depressa e bem, falava mais alto.

A nossa vontade em terminar a tarefa o mais rapidamente possível era tanta que logo que o sol dava sinais de vida, lá íamos nós p'ra "incineradora" e um dia tivemos a sorte de nos cruzarmos com o ten-cor que, talvez sensibilizado pela nossa madrugadora atividade, nos mandou chamar para que "metêssemos a papelada para bazar dali".

A tarefa ainda não estava terminada, mas o ten-cor, face à nossa proficiência e empenho, achou por bem mandar para lá alguém mais "piriquito" e nós lá regressámos à Metrópole quinze dias depois de lá termos vindo no final das férias.

E foi numa deslocação a Bissau para, no mercado negro, "despachar" os últimos pesos que tinha comigo (na messe de sargentos de Santa Luzia já nada havia para comprar),  que encontrei o Djassi, já civil, e que me interpelou de uma maneira agressiva como nunca imaginei que fosse capaz, confrontando-me com a situação para a qual o Exército Português o tinha atirado e dando-me a entender que, naquele momento, para ele, eu era o representante daquele Exército e exigia-me explicações que eu não lhe podia dar.

  Furriel, eu fui ensinado a respeitar a bandeira portuguesa desde que nasci, andei muitos anos no mato a lutar por Portugal, fui ferido várias vezes, fiquei sem um pulmão, sou português, sempre me considerei português!
 
E prosseguindo:

E agora, dão-me dinheiro e vão-se todos embora?!... O que vai ser de mim?!... O que é que o PAIGC vai fazer comigo?!

Naquele momento senti-me envergonhado por ainda pertencer ao Exército que abandonara à sua sorte o exemplar militar português que era o Djassi.
 
Emudeci e não me recordo de lhe ter dirigido grandes palavras de conforto para além de um lacónico: 

− Calma, vai correr tudo bem!...

Cabisbaixo e algo deprimido, retirei-me do local, mas confesso que, minutos depois, o egoísmo veio ao de cima e já só pensava nas "voltas" a dar no sentido de embarcar com destino à Metrópole o mais depressa possível.

Quando, tempos depois, já na Metrópole, comecei a ouvir os noticiários sobre os fuzilamentos de antigos militares portugueses da Guiné, muitas vezes me veio à memória (e continua a vir quando se fala no assunto) o exemplar militar Djassi e questiono-me sobre o destino que teria tido e se os capitães de Abril (na altura no poder) não teriam podido fazer mais por aqueles que combateram ao nosso lado.

Há muito que tinha em mente falar sobre o Djassi, ordenança da CSJD/QG/CTIG, mas como tenho o hábito de salpicar a minha "prosa" com tiradas pseudo-humorísticas (está-me no sangue), tenho alguma dificuldade de escrita para assuntos mais sérios como este. 

Dispus-me agora a fazê-lo, reconhecendo, no entanto, que este episódio era merecedor de uma escrita mais adequada ao fim a que me propus: 

− Prestar uma sentida homenagem a todos os "Djassis" da Guiné-Bissau!

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
____________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27225: Memórias dos últimos soldados do império (4): os "últimos moicanos" - Parte I (Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, Bissau, mar 1973/ set 74)

terça-feira, 11 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26572: O melhor de... Valdemar Queiroz (1945-2025) - Parte III: fevereiro de 1969, a festa de despedida dos "Lacraus", em Silvade, Espinho, antes de partirem para a guerra

 




 Espinho > Silvade > Fevereiro de 1969 > Jantar de despedida antes da partida, a 18, para o TO da Guiné... Um grupo (14) de sargentos e furriéis milicianos da CART 2479, futura CART 11, "Os Lacraus" (1969/70). (*)  (Ao fundo, um "emplastro", que fazia parte da "mobília"do restaurante".)


À esquerda, sentados: 

(1) Canatário (armas pesadas);
(2) Cândido Cunha; 

em pé:

(3)  Silva (transm.)

(4) Abílio Duarte:

(5) Pinto;

atrás:

(6)  Manuel Macias;

(7) Pechincha (operações especiais); 

ao alto:

(8) Sousa;

ao centro:

(9) 1º. srgt Ferreira Jr. (já falecido);

(10) Renato Monteiro (1946-2021);

(11) Ferreira (vagomestre);

(12) Edmond (enfermeiro);

(13) Pais de Sousa (mecânico);

sentado, à direita:

(14) Valdemar Queiroz ("armado em finório") (nasceu em 30/3/1945, em Afife, Viana do Castelo; faleceu em Agualva-Cacém, a 3/3/2025, a escassas 4 semanas de celebrar os  80 anos) (*)

Para completar a classe de sargentos da CART 2479 (futura CART 11),  faltava:

  • o 2º. srgt Almeida (o velho Lacrau) (já falecido);
  • o fur mil Vera Cruz ;
  • o fur mil Aurélio Duarte (também já falecido).


Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Valdemar Queiroz (1945-2025)

ex-fur mil at art, CART 2479 /CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)


1. Mensagem de Valdemar Queiroz, a dez dias do Natal de 2021 (apesar de já doente, teve a melhor prenda que lhe podiam: passou a consoada com os "holandeses", o filho Zé da Silva, a nora Maaike da Silva,  o neto, e as duas netas mais novas)


Data -  14 dez 2021 15:23

Assunto - Foto à procura de uma legenda

Luís,

Esta fotografia foi tirada em Espinho num jantar de despedida (?!)  na semana anterior (05-02-1969) ao embarque, não para a colónia de férias, para a guerra na colónia da Guiné, também chamada "de jure" Guiné Portuguesa e por cá Província da Guiné. Chamem o que quiserem: fomos para a guerra na Guiné.

Vemos na foto, exceção feita ao 1º. sargento, uma  rapaziada de furriéis milicianos de 20/21 anos de idade. 

Para completar a classe de sargentos da CART 2479 (futura CART 11), alta o 2º. sarg. Almeida (o velho Lacrau), o fur mil Vera Cruz e o fur mil Aurélio Duarte que já tinha partido à frente para tratar dos "hotéis e aluguer de carros de passeio".

Na legenda da fotografia vão todos identificados, e destes, infelizmente, já faleceram o 1º. srgt Ferreira Jr, o meu amigo Renato Monteiro  e o outro meu amigo Aurélio Duarte  que não está na fotografia.

Temos na fotografia, à esquerda,  sentados,  o Canatário (armas pesadas) e o Cunha; em pé o Silva (trms), o Abílio Duarte e o Pinto; atrás, o Macias e o Pechincha (op especiais); ao alto, o Sousa; ao centro, o  1º. srgt Ferreira Jr., o  Renato Monteiro (já falecido), o Ferreira (vagomestre), o Edmond (enfermeiro), o Pais (mecânico) e sentado eu, o Valdemar Queiroz (armado em finório). (**)

Abraço e saúde
Valdemar Queiroz

2. Comentário do editor LG:

Dos cinco "Lacraus" que são membros registados da Tabanca Grande, três já deixaram a Terra da Alegria, o Aurélio Duarte (1947-2017),  o Renato Monteiro (1945-2019) e agora o Valdemar Queiroz (1945-2025). Estão felizmente vivos o Abílio Duarte e o Manuel Macias.

___________
 
Notas do editor:


terça-feira, 4 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26550: O melhor de ... Valdemar Queiroz (1945-2025) - Parte I: (i) na morte do Renato Monteiro (1946-2021); (ii) Guiro Iero Bocari, o meu epílogo da guerra




Foto nº 1A e 1 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > L5 (Nova Lamego) > Subetor de Paunca > Guiro Iero Bocari > CART 11 (1969/70) > Arruamento  principal da povoação... O Valdemar com os "djubis", os  miúdos, filhos ds soldados da CART 11.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste  > Região de Bafatá > Contuboel > 1969 > CART 2479 (futura CART 11)  > O Renato Monteiro (1946-2021) à esquerda e o Cândido Cunha, à direita.

Foto: © Renato Monteiro (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Valdemar Queiroz  (1945-2025)
1. O Valdemar Queiroz (Afife, Viana do Castelo, 1945 - Agualva-Cacém, Sintra, 2025) (*) [ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, "Os Lacraus", Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70; membro da Tabanca Grande desde 16/2/2014, com mais de 200 referências do nosso blogue] foi autor da série "Memórias de um Lacrau", de que se publicaram 15 postes, de fevereiro a junho de 2014. 

Tinha um especial carinho pela Guiné, as suas gentes, o "chão fula", e sobretudo pelos seus soldados e suas famílias, que andavam sempre ele, com a casa às costas.... 

A sua CART 2479 (depois CART 11) e o seu grupo de combate passaram  por vários sítios do Leste: CIM de Contuboel, Nova Lamego, Paunca, Guiro Iero Bocari... 

O Cherno Baldé chamava-lhe Valdemar Queiroz "Embaló". 

Em jeito de homenagem, vamos fazer um apanhado de alguns dos seus "melhores apontamentos" dispersos pelo nosso blogue... Mais difícil é rastrear os seus comentários, curtos mas originais, em geral, certeiros mas elegantes,  e sempre bem humorados, comentários em que era mestre na arte da observação: não havia pormenores que lhe escapassem, e à volta disso era capaz de contar uma historieta... 

Para melhor suportar a  terrível doença de que sofria, bem como a solidão do seu apartamento na Rua de Colaride, em Agualva-Cacém, fez do nosso blogue uma fiel companhia, lendo e comentando o que se publicava diariamente... (até à véspera de morrer).

Nos últimos anos cinco anos, deixara de poder sair à rua e ir aos convívios dos "Lacraus"... O último terá sido em 2019, antes da pandemia, em 25 de maio (dia em que também se realizava o XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande, a que ele obviamente nâo pôde ir,  com pena de ambos, e eu perdi a oportunidade soberana de lha dar um abraço ao vivo, 50 anos depois de termos estado juntos, por menos de 2 meses, no CIM de Contuboel, em junho/julho de 1969; foi também nessa altura que conheci outros "Lacraus":  Renato Monteiro (1946-2021), o Abílio Duarte, o Cândido Cunha, etc.


(i) Na morte de Renato Monteiro (1946-2021)

Data: sábado, 10/07/2021 à(s) 16:25
Assunto: Morreu o Renato Monteiro (**)

Morreu o meu querido amigo Renato Monteiro.

Morreu mais um dos nossos queridos camaradas,  também passou as passas de Piche e do Xime. 

Só soube agora  pelo telefonema do seu grande amigo Cândido Cunha, morreu no passado dia 7 de Julho de 2021. 

Ele telefonou-me no dia 27 do mês passado, que estava mal e ia para o hospital, mas pareceu-me ser mais uma crise de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica), agora começo a pensar se não seria mesmo uma despedida. 

Morreu o Monteiro, nunca mais o ouviremos dizer:
 
Quando abrires
o teu armário,
das surpresas imprevistas,
não desistas, não desistas.
E se encontrares dentro dele
roupas velhas,
amachucadas,
desbotadas,
ou se  vires viscosa aranha
com peçonha no seu ventre,
olha para ela de frente,
que ela passa sem tocar-te.
Não desistas, não desistas.

Os meus sentidos pêsames à sua esposa Guida,  a quem ele no dia 18 de fevereiro de 1969 acenou com um lenço vermelho até deixarmos de ver Lisboa a caminho da guerra na Guiné.

Estou a chorar.

PS - Anexo uma foto do Monteiro com o seu grande amigo Cândido Cunha (vd. foto nº 2)


(ii)  Guiro Iero Bocari, o O meu epílogo da guerrra 

Data: 1 de Junho de 2014 às 22:49

Assunto: Uma grande fotografia que representa o meu epílogo na Guiné (***)

Caro Luís Graça:

Esta grande fotografia (vd. foto nº1)  é,  para mim,  o meu epílogo da passagem pela guerra na Guiné.

Com exceção de um ataque de mísseis 122 mm a Nova Lamego, eu nunca tive contacto direto ou com a ação de combate, ou ataques a aquartelamentos.

Eu tive muita sorte, mas é verdade. Eu nunca dei um tiro, a não ser a alguma rola.

Não quero dizer, com isto, que eu não fizesse muitas operações  ou de que a nossa CART 11 não tivesse problemas em combate, que os teve e graves, mas eu,  o ex-fur mil Valdemar Queiroz, por várias razões ou por sorte, nunca os tive...

Mas a  guerra não é só feita de  combates e eu estive lá. Esta fotografia retrata bem o que para mim foi (enganosamente) um epílogo de guerra: uma  tabanca sossegada, sem o mínimo vestígio de violências, eu em trajos civis passeando com crianças alegres (as crianças eram filhos dos nossos soldados e tinhamos acabado de jogar à bola).

Foi a minha última fotografia  tirada na Guiné, se calhar foi a primeira daquelas crianças na rua principal em Guiro Iero Bocari.

Inesquecível!

Valdemar Queiroz

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Carta de Paunca (1957) (Escala 1/50 mil) > Detalhes: posição relativa de Paunca, Paiama, Sinchã Abdulai e Guiro Iero Bocari, junto à fronteira com o Senegal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 1 de julho de 2021 > Guiné 61/74 - P22332: In Memoriam (397): Actor Carlos Miguel Bugalho Artur (1943-2021), ex-Fur Mil Amanuense do CMD AGR 1980 (Bafatá, 1967/68), falecido no dia 19 de Junho de 2021 (José Martins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5)


(***) Vd. poste de 2 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13226:Memórias de um Lacrau (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70) (Parte XV): Uma grande fotografia que representa o epílogo da minha passagem pela guerra

segunda-feira, 3 de março de 2025

Guiné 67/74 - P26549: In Memoriam (537): Morreu o Valdemar, o último tuga da rua de Colaride

 

Lisboa > 20 de junho de 2019 > Quatro "Lacraus", da esquerda para a direita. Renato Monteiro (1946-2021), Abílio Duarte, Valdemar Queiroz (1045-2025) e Manuel Macias, todos ex-fur mil da CART 2479 / CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70), mais conhecidos como "Os Lacraus".


 O Abílio já não estava com o Renato há mais de 30 anos... A pandemia de Covid-19 e os problemas de saúde (do Renato e do Valdemar, ambos vítimas da DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica) não permitiram que esta sardinhada se repetisse em 2020 e muito menos em 2021, o ano da morte do Renato.

T/T Timor > Fevereiro de 1969 > CART 2479  / CART 11 (1969/70) >  Da esquerda para a direita, os fur mil Pechincha, Valdemar Queiroz   e Abílio Duarte


Foto (e legenda): © Abílio Duarte (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Valdemar Queiroz (1945-2025)







Sintra > Agualva-Cacém > Rua de Colaride > Maio de 2023> "Da minha varanda também vejo o mundo... Ou uma nesga, o da da minha rua"

Fotos (e legendas): © Valdemar Queiroz (2023). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Da rua de Colaride via-se o mundo

Uma rua, a rua de Colaride, Agualva-Cacém,
que se tornou famosa,
há uns tempos atrás:
estava no mapa e na blogosfera,
por nela viver (mesmo só podendo assomar à janela...)
um antigo combatente da guerra da Guiné, 
um "lacrau", o Valdemar Queiroz...

Vivia sozinho em casa,
era portador de um doença crónica incapacitante
(o raio de uma DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica),
mas não perdia o gosto de viver e conviver,
e muito menos deixava de cultivar o bom humor de caserna...
Que o crioulo, esse, falava com a empregada
que lá ia a casa fazer a cachupa, a bianda,
e em dias de festa o chabéu de frango...
"Bioxene ? Não, camarada, estou proibido dos médicos.
Agora só água da bolanha!"...

Da sua janela via o mundo... da sua rua.
Era um dos mais antigos moradores da rua Colaride,
que estava então mais bonita do que em 1972/73,
quando um andar do Jota Pimenta
custava 200 contos
(c. 56 mil / 49 mil euros, a preços de hoje...).

Quando o Valdemar Queiroz se casou
e se mudou para Agualva-Cacém, há 50 anos,
a Rua Colaride não era tão bonita
e sobretudo era muito menos "colarida"...
Agora floriam nespereiras e jacarandás nos canteiros.

No país não havia mais do 28 mil estrangeiros
com estatuto legal de residentes...
Há dois anos já eram  mais de 750 mil,
segundo o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras)
que entretanto foi extinto,
mas continuou a haver estrangeiros e fronteiras.

Na Rua de Colaride, havia mais gente oriunda de outras terras,
Cabo Verde, Guiné, Angola, por exemplo,
três antigas colónias portuguesas,
que se haviam tornado independentes em 1974 e 1975...
Muitos vizinhos já teriam a nacionalidade portuguesa,
outros bem a queriam ter,
para não terem um dia destes a desagradável surpresa
de virem a ser corridos da rua de Colaride...
Que era maneirinha, pacata, multicolarida...

As fotos que o Valdemar ia tirando à varanda,
com um telemóvel fatela,
não nos diziam tudo, mas diziam algumas coisas,
dele, dos vizinhos, dos fregueses, dos transeuntes...
Bem, não se via o mundo todo,
via-se só uma nesga, o que era melhor que nada.

E sobretudo deram origem a umas tantas blogarias.
O Valdemar gostava de blogar,
dizia ele que até fazia bem à saúde,
que até se esquecia que estava agarrado à "bomba".

Às vezes, demasiadas vezes, lá sobrevinha uma crise.
Lá vinha o tinonim
e lá ia ele de charola para o hospital
"Parece que me safei desta, camaradas!"

Da última vez, no dia 1, há 2 dias,
escereveu, no blogue, a partir do telemóvel fatela:
"Caro amigo Vinhal... 
Eu estou de cama
sem poder deslocar-me em casa 
por estar ligado a uma máscara de oxigénio.
É uma merda estar nestas condições da doença, 
e magro, como um cão, só pele e osso.
Neste mês vou ao hospital, consegui !!!, com os bombeiros,
para ser visto o pacemaker.
Obrigado pelo teu cuidado, ´
abraço e saúde da boa. 
Valdemar Queiroz".

Morreu o Valdemar, 
o último tuga da rua de Colaride.
"Desta vez não me safei, camaradas,
mas já tinha pedido ao meu filho, que está na Holanda,
para vos avisar, quando a pilha falhasse.
Não se esqueçam de mim,
eu não vos esquecerei".

Minhoto de nascimento, 
alfacinha por criação, 
avô de netos holandeses, aliás, neerlandeses...
Uma história de grande humanidade, 
um exemplo (tocante) para todos nós,
antigos combatentes, 
que somos representantes de uma "espécie" 
em vias de extinção...

Luís Graça

3 de março de 2025,22:00

_____________

Nota do editor:

Último poste da série > 3 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26548: In Memoriam (536): Valdemar Queiroz (1945-2025), ex-Fur Mil da CART 2479 / CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca e Guiro Iero Bocari, 1969/70)

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25458: No 25 de abril eu estava em... (34): Fajonquito... "A guerra acabou?!"... E, agora, o que será de nós, "cães rafeiros do quartel", que não cumprimos os nossos sonhos de meninos, que eram ser "comandos"? (Cherno Baldé, Bissau)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Tabanca dos arredores > CCAÇ 2479 (1968/69) (futrura CART 11)  > Centro de Instrução Militar > Um instruendo, de etnia fula, cuja identificação se desconhece... (mas pode ter sido um futuro soldado da CCAÇ 12).

A placa rodoviária assinala alguns das povoações, importantes, mais próximas, a norte: Ginani (17 km), Talicó (22 km), Canhamina (27 km), Fajonquito (30 km), Saré Bacar (39 km), Farim (96 km)... Foto do nosso muito querido amigo e camarada, Renato Monteiro (Porto, 1946 - Lisboa, 2021), que foi instrutor no CIM de Contuboel, ex-fur mil CCAÇ 2479 / CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Piche, 1969/70) e CART 2520 (1970). Notável fotógrafo, com álbuns publicados e diversas exposições, e ainda co-autor, com Luís Farinha, recorde-se, da pioneiríssima Fotobiografia da Guerra Colonial (Lisboa: D. Quixote, 1998).

Foto (e legenda) : © Renato Monteiro  (2007). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Cherno Baldé, quadro superior
com formação em economia e gestão,
vive e trabalha em Bissau;
colaborador permanente do nosso blogue:
integra a Tabanca Grande
desde 19/6/2009
1. Texto do Cherno Baldé, com data de Bissau, 26 de abril 2024. 

No 25 de Abril de 1974 (*), eu estava em Fajonquito, e vivia entre a nossa casa e o quartel dos metropolitanos onde passava a maior parte do tempo como faxina na caserna de soldados condutores e mecânicos-auto (**).

Nos primeiros dias após o 25 de Abril de 1974, de repente, o ambiente no aquartelamento mudou, os militares pareciam estar divididos entre a alegria contida e a preocupaçãoo do que viria a seguir. 

O silêncio e os murmúrios tomaram conta do quartel e perante a incredulidade geral dizia-se sem nenhuma certeza que “a guerra acabou”. 

Entretanto a vida no quartel decorria normalmente e os patrulhamentos no mato também.

No seio da população nativa e as crianças a única coisa de que se ouvia falar era “a guerra acabou”. Ninguém sabia explicar como e porquê, pois as informações que circulavam,  baseavam-se sobretudo no diz-que-diz habitual dos tempos da guerra, onde as pouquíssimas informações que se filtravam do quartel,  rapidamente se transformavam em boatos e inconfidências da última hora. 

O que se passava no mato, entretanto, nós não sabiamos, pois nunca tinhamos tido quaisquer ligações.

−  A guerra acabou !?!?... Mas, como assim?!?!....

Na minha cabeça de criança que desde 1963/4 convivia com a guerra (**), simplesmente apareceu um vazio na minha mente, e não sabia o que pensar, não podia conceber que não houvesse guerra com os seus mortos e estropiados, com as luzes nocturnas das aldeias incendiadas.

Parecia uma brincadeira. E agora ?!?!... O que será de nós ?...
Vamos acordar e não pensar na guerra ?!... E os nossos amigos brancos vão partir de novo, sem se despedir, deixando o quartel virado de avesso, qual acampamento de tropas de Gêngis Cão ?!...

No quartel, mais do que antes, os nossos amigos soldados também olhavam para nós com alguma desconfiança, como se esperassem descortinar alguma coisa no nosso comportamento, como se estivessemos a esconder alguma informação vinda de não se sabia donde. 

Na incerteza do momento, as novas e milagrosas palavras em voga, “a guerra acabou,  parece que tinham trazido mais desconforto do que alegria. Os soldados estavam divididos, uma parte era de opinião que, por precaução, as crianças deviam ficar fora do arame farpado, mas a maioria deles não concordava e esses eram os nossos amigos de verdade, também nós estávamos desorientados.

− Chico, vamos à lenha ! 
− chamava o meu bom e turbulento amigo Dias, sentado na velha Mercedes.

Incredulidade, uma alegria contida e medo foram os sentimentos que nos dominaram nos dias que se seguiram aos acontecimentos do golpe militar em Portugal que chegou até nós em forma de uma mensagem codificada e curta, portadora de sentimentos contraditórios: “a guerra acabou ”.

A guerra tinha acabado com os nossos sonhos de crianças de guerra ainda por realizar.

Acabou sem avisar, acabou sem que pudessemos alimentar a nossa fome de servir nos comandos africanos e experimentar a sorte dos audazes, acabou sem podermos hastear a bandeira das nossas ilusões da república pluricontinental e plurirracial do Minho ao Timor, acabou sem podermos roncar, na tabanca, em passos ligeiros, com a farda e os galões de “Furriel” dos nossos sonhos de meninice, acabou sem que pudessemos mostrar a nossa bravura em combate, ambição suprema, genuinamente irrefletida e para a qual, no espírito, no corpo e na alma nos preparávamos há mais de 11 anos. 

Acabou como tinha começado, de forma caótica e de consequências imprevísiveis. Os elementos das nossas milicias estavam desamparadas e não era por menos.

Hoje, decorridos 50 anos, a minha vida é um questionamento constante. Às vezes penso que tive sorte por não ter sido soldado, sobretudo quando leio no Blogue da Tabanca Grande narrativas sobre as vivências dos antigos combatentes dos dois lados, às vezes fico com a sensação de não ter cumprido uma parte importante,  se não crucial, de tal maneira que estava convencido da sua inevitabilidade e que me completaria como homem, a vida de um soldado, depois da estoicidade sem precedentes demonstrada aos 10 anos de idade, na cerimónia tradicional (o fanado) de iniciação à vida adulta.

Com o 25A74, para nós, a guerra das armas tinha cessado, dando lugar a guerra do ilusionismo politico-ideológico, das mentiras pseudo-patrióticas e das mil e umas promessas que
nunca serão cumpridas por essa geração utópica de combatentes que nos fizeram acreditar no país de mel e maná do céu, o milagre da nova Suíça que nasceria nas bolanhas e na terra vermelha da Guiné-Bissau.

António Spínola, retrato
oficial.
Museu da Presidência
da República

(adapt. com a devida vénia)

Todavia, na minha visão pessoal, o verdadeiro 25 de Abril, tinha acontecido em princípios de 1970, quando o general Spinola chegou ao aquartelamento de Fajonquito, sem pré-aviso, e na nossa frente deu um tabefe na cara branca e surpreendida do Capitão da companhia, arrancando-lhe os galões que ostentava, alegadamente, por abuso de poder sobre a população indígena com cumplicidade do chefe tradicional local.

Hoje, sabemos que em 1974, apesar de toda a propaganda veiculada na altura e tendo em atenção o percurso e a real situação vigente, os nossos países ainda não estavam preparados para uma independência total como aconteceu, e a solução federalista proposta e almejada pelo general Spínola, pese embora fora de prazo e contra os ventos da história, seria o mal menor como solução a longo prazo e uma boa forma de levar Portugal a responsabilizar-se e trabalhar em conjunto com as suas antigas colónias sobre medidas para lidar com os legados de todos os seus actos e desventuras ao longo dos séculos nesses territórios, incluindo a contribuição para uma verdadeira reconciliação e justiça entre os seus povos. 

Mas isso sou eu a falar com os meus pequenos botões.

Bissau, 26 de Abril de 2014
Cherno AB

(Revisão/fixação de tecto, negritos: LG)
__________


(**) Vd. a notável série autobiográfica do Cherno Baldé, de que já se publicaram mais de meia centena de postes (fora os "avulsos")> 


19 de junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4553: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (1): A primeira visão, aterradora, de um helicanhão